Não é sempre que caminho assim. Raramente abro trilhas no silêncio sem ter os olhos atentos a um mapa, firmo os pés no chão e ainda nos primeiros passos sei exatamente onde quero chegar, mesmo que não possa, antecipadamente, conhecer todo o percurso a realizar, mas enquanto escuto o televisor ainda ligado na sala, sinto-me convidado aventurar-me por vielas, ruas, estradas e rumos que desconheço. Tenho vontade de virar a esquina e aumentar o ritmo da caminhada acreditando que o objetivo não é chegar a algum lugar, mas compartilhar o medo de me perder no meio da multidão que se esbarra.
Receio não ter a ginga certa, sabe? Temo que descubram que não tenho o jeitão descolado de movimentar as pernas. A verdade é que não tenho um andar confiante. Eu sei que este texto está meio confuso, me perdoe por isso. Não há como ser diferente, mas prometo que tentarei me fazer entender.
Quando falo de caminhar sem destino, não estou falando de viver uma vida sem propósito. Não se trata de um pensamento tão macro, eu estou filosofando sobre a arte de escrever. Quase sempre tenho uma experiência que desejo passar, um caminho para apontar. Mesmo que não sejam inovadores ou profundos, eles estão sempre presentes, porém agora é diferente. Quero apenas contar uma particularidade, sem saber dizer se há ou não algum ensino por trás disso.
Amo contar histórias. Um tombo engraçado, uma mania, uma conversa, um sonho infantil, não importa, há sempre um sorriso escondido no passado feliz. Há pouco estava assistindo um filme. Absorto. Envolvido. Empolgado. O enredo intrigante. Os diálogos inteligentes. As cenas emocionantes. O drama revelador. Tudo muito bom, mas quando as coisas começaram a ficarem mais difíceis, quando um dos mocinhos da história começa a ser injustiçado, quando os planos bem elaborados deram errado, eu troquei de canal.
O filme acontecendo e meus olhos saltaram para outro mundo vivo na tela, poderia ser qualquer coisa. Um anúncio. Um telejornal, ou até mesmo o Castelo Ratimbum, apenas não queria continuar angustiado, queria interromper o fluxo de imagens que frustravam meu mundo cor de rosa ou mundo azulzinho e no momento em que fiz isto fui invadido por muitas lembranças, recordei diversas vezes em que fiz a mesma coisa, simplesmente troquei de canal.
Não encarei a cena, fechei os olhos ao caminhar trôpego do cansado, não por desejar ignorar seu sofrimento, mas por não suportar compartilhá-lo com ele. Que vergonhoso reconhecer isso, sempre foi mais fácil trocar de canal, pois, depois de um tempo, era só apertar o controle novamente para voltar ao filme. Tudo foi esclarecido. Havia um propósito para dor, para lágrima. O vazio, deixado pelo filho que se foi não está preenchido, mas as noites não são tão negras e uma música de esperança rega a vida com novos sonhos.
Troquei de canal quando o tímido era humilhado no corredor da universidade, quando o esquisito foi maltratado pelo jogador principal do time de futebol americano, quando a líder de torcida se preparava para derramar ponche na roupa da nerd que mudou o modelito e está tendo sua noite mais encantada, no baile de formatura. E o mais engraçado é que quando retornava ao canal, tudo estava resolvido e bem ajustado.
Não sei como isso pode ser aplicado para vida, sei apenas que, por muitas vezes, troquei de canal. No entanto, hoje consegui resistir, voltei atrás e assisti ao filme por inteiro. Entendi melhor as reconciliações, pois suportei assistir as rupturas, festejei com mais intensidade o reencontro, pois testemunhei a dor lancinante da despedida forçada.
Às vezes ajo assim na vida, ao ver situações complexas e tensas busco trocar de canal. Evitar os confrontos necessários. Quero aprender que não posso fugir da realidade da vida, não posso esconder meu coração das tristezas, constrangimentos, desilusões, ou, de qualquer outro desencanto da existência. Quem troca o canal perde as mais profundas lições da vida.
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